Histórias de e sobre Identidade

PSICOLOGIA B: HISTÓRIA SOBRE A IDENTIDADE

A Liliana é uma menina de oito anos que, desde os quatro meses está no Orfanato Santa Maria em São Paulo, Brasil.
Nunca foi uma criança desejada, sendo o pai traficante de droga e a mãe adolescente. Conhecendo um pouco da sua história, Liliana, sempre se sentiu privada do carinho e amor dos pais, factor vital para o bom desenvolvimento, tanto físico como mental de um ser humano.
Certo dia, o Padre António Vieira chamou-a ao seu gabinete dizendo:
- Minha querida
- Diga Senhor Padre – e, quando o Padre viu os seus grandes olhos castanhos a reluzirem de espanto, prosseguiu:
- Gostas de histórias? Porque hoje vou contar-te uma...
No dia 24 de Julho de 1989. Bateu à porta do orfanato uma jovem muito nova com uma criança ao colo, embrulhada em panos bordados com borboletas, dizendo que não tinha como criar a menina que tinha nos braços.
Acolhi-a e criei-a em conjunto com as outras crianças sob as regras do orfanato, ao qual nunca teve uma adaptação muito fácil, sentindo-se sempre deslocada.
Por volta dos seus seis anos começou a fazer asneiras, tentando até fugir daqui. – Quando o padre proferiu estas palavras a admiração no rosto da menina era visível.
- Sabes qual é o nome desta menina?
Levantando o rosto, ela disse:
- Liliana.
-Não peço que esqueças aquilo que sofreste – disse o padre – só quero que te tornes numa pessoa forte e lutadora e que pares de fazer asneiras porque tu... és uma boa menina.
A Liliana decidiu mudar a sua conduta e reconhecer-se perante si própria, aceitando o destino que a vida lhe tinha conferido.
Aos dezoito anos, a Liliana abandonou o Orfanato Santa Maria envergando pelo ensino superior que, mais tarde, lhe deu um curso, proporcionando-lhe uma estabilidade na vida que nunca tinha tido antes. Tornou-se uma pessoa um pouco mais aberta a relações, conseguindo manter laços afectivos, coisa que não fazia quando era pequena. Posteriormente casou e teve um filho, ao qual decidiu chamar António. Para o baptizado do seu filho quis que o Padre António Vieira estivesse presente, enviando-lhe assim um convite esperando a sua presença.
No dia do baptizado do menino, a Liliana sentou-se junto do padre e disse:
-Gosta de histórias? Hoje tenho uma para lhe contar...
O padre nada disse, inclinou apenas a cabeça para que pudesse olhar Liliana nos olhos e escutou atentamente.
- Era uma vez uma menina que sempre se questionou onde estariam os seus pais e qual a razão para a terem abandonado. Viveu num orfanato até aos dezoito anos e sentiu-se sempre muito sozinha e incompreendida e, por isso, decidiu fazer asneiras para ver se, dessa forma, obtinha alguma atenção. Até que um dia, o Senhor Padre encarregue do orfanato chamou-a para terem uma conversa. Aí, apercebeu-se de como tinha sorte por ter um tecto, alimento e carinho, mesmo que não fosse o dos seus pais. A partir desse dia pode-se dizer que passou a ser uma criança estável, com um bom equilíbrio. Quando saiu do orfanato, aos dezoito anos, decidiu que iria fazer de tudo para que pudesse ser bem sucedida para garantir uma boa vida aos seus filhos – caso viesse a ter – e a si própria. A verdade é que essa menina estudou, trabalhou, namorou, casou e...teve um filho. Foi estudante, agora é proprietária de uma loja, é esposa, é mãe. Teve que ter motivação para agir, para proporcionar uma mudança na sua vida que lhe proporcionasse uma visão positiva de si.
Quando terminou, o Padre António Vieira continuava atento nos seus grandes olhos castanhos. Então disse:
-Sabe qual é o nome desta menina?
E o Padre com orgulho e com um sorriso no rosto responde:
- Liliana.
Ana Margarida e Patrícia Silva